Dinâmica de Tribunal:
Julgamento dos Aspectos Psíquicos de Pã-Touro em Nós.
Relato e reflexões
Tamanho foi o impacto do Tribunal Ares-Marte, que a equipe toda se via discutindo o evento nos 15 dias que se seguiram a este primeiro Tribunal.
Sabíamos que o Tribunal Touro-Pã nos aguardava, mas Ares ainda brigava dentro de nós, pedia passagem, se impunha nas conversas. E isto também era vivido por outras pessoas, pois num curso, palestra ou confraternização, lá vinha o assunto de novo - e cheio de vida!
Quando vimos, o preparo de Touro já se fazia urgente.
O quadro se compôs:
Vera Querino posicionou-se como Assistente do Juiz.
Nobuo Tanoue assumiu o papel de Juiz.
Edna Jardim se candidatou para a Promotoria.
Rita Hetem: Advogada de Defesa.
Alessia Colombo: auxiliar no preparo da sala e ambientação e Eduardo contribuições para ambos os lados (Promotoria e Defesa), uma “supervisão” do Tribunal.
Judith Nakano e Sueli Rodrigues: “AAA” (Auxiliares para Assuntos Aleatórios) - e a defensoria se utilizou muito bem desta disponibilidade.
Testemunhas de Acusação:
Lídia Morcelli Duarte e Elodye L. Bez Chleba
Testemunhas de Defesa:
Elaine Batista e Marcelo dos Santos.
Começa o Tribunal.
Com ares de solenidade e sobriedade, a Assistente Vera Querino chama um a um os componentes do processo, por seu nome completo.
O Juiz, numa toga impecável, coloca-se em seu lugar, impondo ainda mais uma nota de dignidade e seriedade ao ambiente.
O Júri é sorteado: dois nomes entre aqueles que se candidataram - Lucília Santa Vidotto e Alessandra de Oliveira Mendes. Cinco nomes foram sorteados entre os “novatos” (sendo considerados como novatos[1]). Os nomes sorteados foram: Regina, Márcia (Sul), Solange Kronig, Rodrigo (Sul) e Giovana.
O Juiz se dirige ao corpo formado pelos jurados e lhes esclarece sua função. Pergunta-lhes se têm opinião previamente formada sobre o tema – o que lhes impediria de serem imparciais. Eles fazem seu juramento de compromisso com o Eu Real.
O Juiz pergunta aos advogados se haveria de sua parte, algum impedimento para qualquer dos membros ali colocados como jurados, ou se o júri estaria bem composto. Ambos concordam com a composição do júri.
Nota
Sueli havia nos esclarecido: sempre que uma testemunha for requisitada mais de uma vez, pode ser substituída pelo Juiz. Resolveu-se não fazer isto desta vez (caso da Giovana) para respeitar a decisão da Natureza (sorteio).
A Defesa aproveita para elogiar a elegância do Juiz:
“-Gostaria de aproveitar, Senhor Juiz, para dizer que o senhor está muuuito elegante.”
“-Senhora Advogada de Defesa, atenha-se aos fatos.” – retorquiu-lhe seriamente o Juiz, já impondo sua imparcialidade e honestidade.
“-Ora! Mas é um fato! O senhor está realmente muito elegante!”.
E com isto já estava dada a nota que permearia o personagem assumido pela defensoria: uma defesa que procuraria conquistar, seduzir, “dar um jeitinho” para simpaticamente burlar regras e “fechar o negócio a seu favor”.
Começam os depoimentos.
Curiosamente, os testemunhos foram um tanto confusos, ou imbuídos de já se colocarem “positivamente” taurinos.
Explicamos melhor: ao invés de apenas relatar um fato ocorrido em suas vidas, as testemunhas já diziam: “então eu estudei muito”, ou “me disciplinei”, ou “planejei melhor meus gastos” – de modo que já embutiam em seus depoimentos um compromisso aparentemente amadurecido em relação aos aspectos taurinos.
Aproveitando-se disto, a defensoria “demonstrava” para o público o quanto esta energia taurina era positiva, poderosa e curativa – especialmente nos casos de dificuldades financeiras – problema que era o foco da maior parte das testemunhas.
A Promotoria, por sua vez, procurava demonstrar que havia uma inconsciência por parte das testemunhas em relação ao período crítico que tinham atravessado na vida. Esclarecia, repetidamente, que o réu era a inconsciência e não as pessoas, nem tampouco a energia de Touro. Ressaltava a inconsciência como geradora da ignorância, mãe de todos os males da humanidade. Isto na intenção de demonstrar que a inconsciência é que deveria ser sentenciada ao autoconhecimento, condição fundamental para que então a energia taurina pudesse gerar seus bons frutos.
Mas a defensoria tripudiava. Perguntava às testemunhas se haviam perdido a conexão com os prazeres frugais da vida (valor taurino, sem dúvida: os prazeres cotidianos). Três das testemunhas confessaram haver se perdido disto em nome do trabalho-trabalho-trabalho (ou seria em nome do medo-medo-medo de ficar sem provisões?). Malandramente, a defensoria oferecia balinhas, “prazeres frugais” para que “recomeçassem” a viver de bem com a vida. Apenas uma testemunha percebeu e recusou a “inocente barganhinha”.
Elodye, firme e simplesmente respondeu:
“-Desculpe, mas não posso aceitar.”
Claro que não poderia aceitar! Nenhuma testemunha poderia aceitar!
O Juiz chama a atenção da Advogada, que então oferece balinhas também para o Juiz e começa um burburinho no público, risos, comentários, confusão – e novamente o Juiz chama a atenção da Advogada de Defesa:
“-Mas senhor Juiz, não estou influenciando ninguém, inclusive meu interrogatório já terminou, é apenas um prazer frugal, uma inocente balinha...”
A Promotoria protestava, acusava a Defesa de desonestidade e barganha, e chamava a atenção para a negociata, para o desvio do foco principal, para a necessidade urgente de que a inconsciência fosse encaminhada para as sentenças do autoconhecimento (vide autos do processo) e a Defesa usava os mesmos termos, o mesmo raciocínio, apenas invertendo a proposta: absolver, ao invés de condenar.
Instala-se a confusão.
As outras testemunhas, talvez sem clareza sobre o seu papel, ou seduzidas pela simpatia, ou pelo amor à piada, ou ainda porque adoram balas, aceitavam. O próprio público passou a aceitar e desejar balas, pedir balas – mesmo nos intervalos! – e a Advogada de Defesa se sentia agir como alguns líderes políticos da América Latina, ou como alguns pastores de religiões pouco lúcidas.
Então, a Promotoria cresceu em seu argumento. Acusou (e lembrou a todos) a divisão de renda injusta, a miséria, o medo do futuro e da falta de provisões justificando todas as ganâncias – e por trás de tudo isto, novamente a ignorância perversa, atroz, “mãe de todos os males” – e pede a sentença, literalmente: “que a ignorância seja sentenciada ao autoconhecimento”.
A Defesa procura inverter a opinião pública e “confundir o eleitorado”. Diz que os próprios Mestres recomendam o planejamento e a organização com vistas a um objetivo, a uma Obra – e que se falavam em “obra”, os Mestres seriam taurinos, pois “obra é coisa de taurino” - (ai, ai – mas que asneira!) - e usando do recurso da teatralidade, pega um livro Humi e o ergue, cita um trecho e faz um teatro total, com falas indignadas e direito a cair de joelhos. Esperneava dramaticamente - com a intenção de tirar o foco fulminante colocado pela Promotoria. Agia deliberadamente de modo desonesto e sem compromisso com a verdade: buscava impressionar, usava um trecho de um texto manipulando seu significado!
A Promotoria incrementa a força de seu argumento. Evoca a ganância descabida a destruir a vida de um planeta, porque o lucro imediato (a balinha) é mais atraente do que pensar globalmente, holisticamente. Cita o filme “Uma Verdade Inconveniente”, documentário de Al Gore a respeito da situação ambiental, do aquecimento global, dos descasos com o Tratado de Kyoto e da confusão criada para que a opinião pública não soubesse discernir a informação real em meio a informações oportunistas – o que a impediria de raciocinar para tomar as providências possíveis.
A Defesa entra criticando a hipocrisia que pretende acusar o “erro” no comportamento alheio, sem realmente agir para corrigir em si mesmo os próprios comportamentos. Afirma que esta crítica a um país que não colabora com o Tratado de Kyoto (porque isto comprometeria sua economia[2]) só pode ser falsa e hipócrita, pois todos consomem seus produtos, continuamente. Dizem que “ele” não pode agir assim, mas cegamente seguem estimulando que tudo permaneça exatamente como está: “-Então, estão criticando o quê? Quem não tem um produto americano em sua casa? Quem deixaria de comprá-los?”
E vai adiante dizendo que o erro é necessário, que o erro é benéfico, que todas as testemunhas demonstraram isto: que seus erros lhes ensinaram, que todas cresceram a partir de seus erros e que não pulariam aquela fase difícil de suas vidas, pois é a partir dela que houve o aprendizado.
Fez então um paralelo entre este trajeto pessoal e o coletivo, e concluiu que seria um despropósito condenar “uma força” (mas não era sobre isso de que se tratava a acusação!), pois ela tinha todo o direito de se manifestar como fosse o caso.
Chegou então o momento dos jurados refletirem para dar seu parecer. Tiveram 5 minutos para se reunir e trocar idéias – e alguns se confessaram confusos.
Finalmente, manifestaram seus votos. Refletiram, embasaram suas posições e se posicionaram. Alguns, ainda confusos, deram seu voto mesmo assim.
Resultado:
Votaram absolvendo os aspectos psíquicos: Regina, Rodrigo, Giovana
Condenaram os aspectos psíquicos às sentenças previstas nos autos: Lucília Santa Vidotto, Márcia, Alessandra de Oliveira Mendes, Solange Kronig
Ou seja: 4 X 3 para a Promotoria (Acusação).
REFLEXÕES
Foi muito interessante ver a votação e o esforço dos jurados em encontrar a coerência em tudo que havia sido exposto.
Alguns repetiram argumentos dos advogados, enfaticamente. Outros, timidamente receavam “contrariar” algum dos advogados, aparentemente interpretando que seu parecer teria ressonâncias pessoais, melindres. Outros explicitavam como sua mente havia sido arremessada de cá para lá, conforme aconteciam as argumentações, até que encontraram a referência central na qual se baseava aquele julgamento.
À bem da verdade, a sentença solicitada era mais do que razoável, e em nada prendia ou diminuía a energia taurina. Caso conseguissem prestar atenção e focar isto, veriam.
E qual não foi a surpresa, quase constrangedora, de que é possível enrolar e enganar, confundir as mentes, mesmo diante do óbvio. Esta havia sido a linha de trabalho escolhida pela Defesa (cada Tribunal escolhe sua estratégia e, como esclarece a Ordem Magna, “tudo pode acontecer” – e os participantes devem estar atentos, “despertos”... para perceber o que está acontecendo ou para mergulharem e, depois, refletirem sobre como foram conduzidos).
De todo modo, fica que o poder do Verbo pode esclarecer ou confundir, pode inclusive tirar a energia e atenção do essencial para criar, nas mentes, as realidades mais absurdas e descabidas, forjando provas a partir de uma lógica parcial.
Mas deixemos isto para mais adiante, pois são questões para o próximo Tribunal – Hermes-Mercúrio e o poder do Verbo e da Comunicação.
Em tempo...
Beatriz Segall X Odete Roitman
Um aspecto curioso que os atores dos Tribunais estão vivendo, repete aquele vivido por Beatriz Segall em relação ao personagem “Odete Roitman”.
Será que todos lembram?
Em 2004, a TV Globo lançou uma novela de Gilberto Braga, chamada “Vale Tudo”. Nela, havia uma megera “total”, encenada magistralmente por Beatriz Segall. Esta megera era tão ruim, tão ruim, que acabou sendo assassinada e, ao final da novela, a pergunta era: “quem matou Odete Roitman?” – porque todos os personagens teriam motivos suficientes para isto.
Na época, a atriz Beatriz Segall deu entrevistas contando que chegava a ser ameaçada na rua, porque as pessoas achavam que de fato ela era Odete Roitman, e transportavam a fantasia da telinha para a vida pessoal de Beatriz.
Hoje Beatriz Segall tem 80 anos, passaram-se mais de 20 anos da produção da novela e ela conta, contrariada, que ainda alguns a chamam de Odete...
Pois é: alguns atores (e isto inclusive ocorreu no Tribunal de Ares) foram interpelados pessoalmente como se de fato pensassem conforme os personagens que encenaram... E isto aconteceu até mesmo com Aléssia e Elodye que representaram duas deusas gregas no Tribunal anterior (Afrodite e Atená) – o que não dirá com os advogados, que tinham a tarefa de encarnar seu papel com todo o coração.
Essa confusão entre ator e personagem também aconteceu no Tribunal de Touro, com pessoas que, além de terem se manifestado “contra” em público, procuraram a pessoa do advogado de acusação para reiterar enfaticamente que não concordavam com o que “ela” (atriz) dizia a respeito da inconsciência.
A vida imita a arte?
Ou estamos todos num imenso cenário e nos esquecemos disto, confundindo encenações com a vida, mesmo quando combinamos que vamos encenar? Mergulhamos no sonho – e sonhamos, convictos, indignados, submissos, esquecidos de acordar... Não só permitindo que a ignorância continue a campear, mas também nos tornando veículos dela.
Deus do Céu, onde estará a lucidez?
Grande abraço a todos e até Hermes-Mercúrio,
Rita Hetem
[1] “Novatos” talvez não seja a melhor expressão. Mas considerou-se aqueles que não podem estar sempre num Humihop, ou que ainda não freqüentaram um curso humi.
[2]Os Estados Unidos da América negaram-se a ratificar o Protocolo de Kyoto, de acordo com a alegação do presidente George W. Bush de que os compromissos acarretados pelo mesmo interfeririam negativamente na economia norte-americana. A Casa Branca também questiona o consenso científico de que os poluentes emitidos pelo Homem causem a elevação da temperatura da Terra. Mesmo o governo dos Estados Unidos não assinando o Protocolo de Kyoto, alguns municípios, Estados (Califórnia) e donos de indústrias do nordeste dos Estados Unidos já começaram a pesquisar maneiras para reduzir a emissão de gases tóxicos — tentando, por sua vez, não diminuir sua margem de lucro com essa atitude. – fonte: Wikipedia – Enciclopédia Livre (On Line).
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